DE OUTROS CARNAVAIS
De outros carnavais é um projeto de preservação e valorização da memória do Carnaval de Joaçaba, por meio da organização, tratamento arquivístico e difusão de acervos fotográficos e audiovisuais produzidos entre as décadas de 1970 e 2020.
A iniciativa reúne registros das escolas de samba Acadêmicos do Grande Vale, Vale Samba e Aliança, além do acervo da VMS Produções, compondo um importante conjunto documental sobre a história, a cultura e a identidade do carnaval joaçabense. São fotografias, vídeos, fitas magnéticas, DVDs e arquivos digitais que registram tanto os desfiles quanto os processos criativos e a participação coletiva que dão vida à maior manifestação cultural da cidade.
O projeto realiza a identificação, organização e preservação desses materiais, priorizando a digitalização de registros em fitas magnéticas, suportes mais vulneráveis à deterioração. Os demais documentos são catalogados e descritos, formando um acervo digital estruturado, acessível ao público e preparado para futuras ampliações.
De outros carnavais fortalece a memória coletiva e cria uma base para pesquisas, ações educativas e para a construção do futuro Memorial do Carnaval de Joaçaba. Este projeto representa o primeiro passo na implantação do Plano Museológico do memorial do carnaval, estabelecendo as bases técnicas e documentais necessárias para a preservação, interpretação e difusão do patrimônio carnavalesco ao longo do tempo.
Como ação de difusão, o projeto realizou a abertura da exposição De outros carnavais em 10 de julho, apresentando fotografias, registros audiovisuais e diferentes formatos de exibição que convidam o público a revisitar mais de cinco décadas da história do Carnaval de Joaçaba. A mostra permanece aberta até 10 de agosto, quando será encerrada com uma roda de conversa reunindo representantes das escolas de samba, pesquisadores e participantes do projeto, promovendo um diálogo sobre a preservação da memória e os caminhos para o futuro Memorial do Carnaval.
Ao reconhecer o audiovisual e a fotografia como pilares da memória contemporânea e a cultura popular como patrimônio vivo, De outros carnavais estabelece um marco na preservação da história do Carnaval de Joaçaba. Mais do que organizar um acervo, o projeto inaugura um processo permanente de salvaguarda, pesquisa e acesso público, garantindo que essas imagens e narrativas permaneçam disponíveis para as gerações futuras e consolidando os fundamentos para um espaço dedicado à memória do maior patrimônio cultural da cidade.
texto curatorial
o que é que começa depois que a festa acaba?
O confete no meio das roupas, a purpurina impregnada na pele, a ressaca do carnaval se espalha no tempo se transformando em memória, quando amanhece a quarta-feira de cinzas. Esses indícios de que a festa foi boa sobrevivem nas imagens esparsas que a memória guarda e gravadas em fotografias ou vídeos. São essas coisas físicas que ainda pulsam no sobretempo. Testemunhas que possibilitam ativar acontecimentos, pessoas e as inúmeras sensações que só uma festa tão potente, popular e bonita como o carnaval consegue irradiar.
Folheando páginas dos álbuns parece ser possível reviver, ouvir a voz de Augusto puxando o samba entre a Rio Branco e a XV, Sandra e Jorge sonhando azul, vermelho e branco desde o começo de tudo, no alto do primeiro carro Luiz entre plumas, Carlos criando um universo luxuoso, Maria girando a cultura de tambor, as sandálias firmes da ingrid sobre o asfalto, a Mara chacoalhando as pedrarias no peito, o beijo de Wlad na bandeira, Flávia com um longo branco de lantejoulas, o outro Carlos todo de branco puxando a coordenação, Fernanda, José, João, Zeca, Jaime, Sérgio, Tai, Júlio, Paulo, Ana, Pedro, Tere, muitos nomes de vários carnavais.
O povo se espremendo na rua entre as ferragens de arquibancadas, espiando de baixo, o povo abonado nos camarotes, uniformizados, vendo tudo de cima. A águia, a coroa,
a pomba, o centauro, os dragões e o tigrão, uma fauna de comunidades ao redor do samba. A consonância orquestrada entre uma comissão que puxa mil pessoas pulando e brilhando e o apito organizando as batidas de tantos tamborins, rebolados, corações e corpos que atravessam uma cidade em todo fevereiro/março fazendo da rua uma festa. todo ano, com temas que viram enredo e assunto pra ser falado e cantado em mais de uma voz.
O carnaval de Joaçaba em quase 50 anos de registro e história se construiu a partir de um imenso trabalho feito por artistas que fizeram do encanto a atuação profissional constituindo um espaço nobre e honrado para a cultura popular. E hoje, se olharmos pra trás, o que ficou desses outros carnavais que ainda não sabemos? O que não se quer perder na lembrança? O que precisa ser contado para essas e para as gerações que vem vindo?
Este projeto foi criado para salvaguardar imagens estáticas e audiovisuais em formato digital com parte da memória coletiva do carnaval. Registros que vêm desde 1978 e seguem até a atualidade compondo um intenso e vultuoso arquivo.
Nosso trabalho inicial foi mapear alguns acervos de escolas de samba, higienizar, organizar e transformar em arquivos digitais. Agora, tudo integra o acervo da Cinemateca Catarinense garantindo mais tempo de vida. Um tratamento arquivístico que acontece como um primeiro passo de várias etapas ainda por vir, com o objetivo de culminância em um memorial do carnaval. Coisa de muito trabalho e de futuro, mas que esperamos que seja um futuro próximo, pois é grande e necessária a vontade de dividir memórias de outros carnavais, com isso, dividir nossa capacidade criativa e sensível de transformar a realidade em alegoria.
Talvez seja esse o trabalho da memória: fazer com que a quarta-feira de cinzas nunca seja o fim da festa, mas apenas o momento em que ela encontra outras formas de continuar.
Gabi Bresola
Projeto realizado com recursos da Prefeitura de Joaçaba, por meio da Secretaria de Comunicação, Cultura e Eventos e da Intendência da Cultura.
FICHA TÉCNICA
Tratamento arquivístico: Abigail Ferrandin e Gabi Bresola
Produção executiva: Gabi Bresola
Comunicação: Abigail Ferrandin / Ombu produção
Digitalização: Vilmar Sartori e Vinicius Sartori/VMS
mais informações:
@ombuproducao














